Com uma convite a cuidar da vida interior sem dar as costas à realidade, o Centro Bíblico Teológico Pastoral para a América Latina e o Caribe (Cebitepal) inaugurou um novo ciclo formativo com a participação do sacerdote jesuíta Cristóbal Fones, atual diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, missão que desempenha desde janeiro de 2025.
Formado em teologia sacramental e litúrgica e reconhecido por seu acompanhamento espiritual a jovens do continente e por seu serviço aos processos de evangelização a través da música, o padre Fones apresentou durante a conferência inaugural “O caminho do coração”, itinerário espiritual e formativo da Rede Mundial de Oração do Papa.
O encontro foi dirigido a agentes de pastoral, comunidades religiosas, grupos de oração e pessoas interessadas em aprofundar sua vida interior a partir de uma perspectiva que não separa a experiência de Deus da realidade. A proposta, explicou o sacerdote, parte precisamente de deixar-se interpelar pelo mundo para encontrar-se com Deus no encontro com os outros.
Rede para olhar o mundo com compaixão
O padre Fones explicou que a Rede Mundial de Oração do Papa é um serviço eclesial confiado pelo Santo Padre à Companhia de Jesus, aberto a comunidades, grupos e pessoas individuais que queiram oferecer sua vida cotidiana para colaborar com a missão de compaixão de Jesus. “Não é um projeto comunicacional”, precisou, mas “uma iniciativa eclesial liderada pelo Santo Padre”, que convida seus integrantes a se concentrarem a cada mês em uma intenção particular, abri o coração diante dessa realidade e interceder por ela oferecendo a própria vida.
O sacerdote lembrou que esta iniciativa nasceu na França em 1844 sob o nome de Apostolado da Oração, posteriormente conhecido como Liga do Coração de Jesus. Em 1890, o Papa Leão XIII começou a encomendar formalmente intenções mensais de oração. Mais adiante, em 2018, o Papa Francisco a constituiu como obra pontifícia e, em 2020, foi criada uma fundação vaticana.
Atualmente, ressaltou o padre Fones, a rede reúne aproximadamente 22 milhões de pessoas e conta com escritórios nacionais em diferentes países. No entanto, para o jesuíta, além dos números e da estrutura internacional, o essencial permanece em outro lugar: “Trata-se de uma missão de compaixão, de aprender a olhar o mundo com os olhos de Jesus, compaixonadamente”.
Esta perspectiva supõe que as intenções mensais do Papa não sejam apenas temas pelos quais se reza, mas realidades diante das quais a pessoa está chamada a se deixar transformar. “O mais importante é olhar para os que sofrem como Jesus os olha, nos comovendo, deixando-nos transformar por essa realidade”, explicou. A resposta, acrescentou, se articula por meio de “a oração, o serviço e a formação interior”.
“O caminho do coração”: uma espiritualidade que transforma
Durante a conferência, o padre Fones apresentou “O caminho do coração” como uma proposta catequético-mistagógica que vem se desenvolvendo e aperfeiçoando durante mais de uma década. A finalidade é evitar que a oração pelas intenções do Papa fique reduzida a uma prática isolada. O itinerário tem como propósito que aqueles que participam possam experimentar uma transformação interior diante das realidades que afetam a humanidade.
“Não sejam apenas palavras ou de manhã dizer a intenção do mês e rezar um rosário e ponto, mas realmente irmos nos transformando por dentro”, apontou. O itinerário propõe nove passos, simbolicamente vinculados aos nove primeiros sextas-feiras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Os primeiros tres se concentram na relação da pessoa com o Pai; os seguintes tres, em Jesus Cristo; e os últimos três, na comunidade, o envio e a missão, em relação com a ação do Espírito Santo.
A primeira etapa parte de uma convicção fundamental: o amor de Deus está na origem de tudo. A partir daí, a pessoa é convidada a reconhecer sua própria realidade, suas inquietações, perguntas, feridas e necessidades, para então ampliar o olhar para o mundo e discernir aquilo que precisa ser transformado. “É ir partir da nossa própria realidade”, explicou o padre Fones ao apresentar esta primeira etapa, que culmina com um olhar para os irmãos, os ambientes e as situações onde se reconhecem tanto opções de vida como realidades que reclamam uma intervenção de Deus.
“Cultivar realmente uma relação pessoal com o Senhor”
A segunda etapa se centra em Jesus Cristo. O ponto de partida é a encarnação: um Deus que sai de si mesmo e se aproxima da humanidade. Fones sublinhou que o modo da encarnação revela também o coração de Deus: “Um Deus extrovertido que sai ao encontro, que não se guarda a si mesmo, zelosamente”.
O itinerário propõe, além disso, cultivar uma relação pessoal com Jesus. Não se trata apenas de pertencer a uma comunidade ou de fazer parte de uma multidão crente, mas de descobrir que Cristo chama cada pessoa pelo seu nome.
Para o sacerdote jesuíta, essa dimensão continua sendo um desafio pastoral importante na América Latina: “Cultivar realmente uma relação pessoal com o Senhor”. A devoção popular e a veneração ao Cristo crucificado são profundas no continente, mas a proposta convida a levar essa relação com Jesus às decisões e situações concretas de cada dia: as relações familiares, o trabalho, o uso do dinheiro, o cuidado da criação e a própria vida.
Da devoção à espiritualidade
A passagem “de da devoção à espiritualidade”, segundo explicou o padre Fones, não se trata de abandonar as práticas religiosas, mas de permitir que estas alcancem todas as dimensões da existência. “Da devoção à espiritualidade”, resumiu, significa passar de uma prática afetiva que sustenta a vida religiosa a uma profundização que chega até mesmo às decisões, às leituras, às conversas e à maneira de viver cotidianamente.
Neste caminho, têm um lugar fundamental duas práticas: a oração cotidiana com a Palavra de Deus e a releitura espiritual ou exame do dia. A proposta, inspirada na experiência dos Exercícios Espirituais de santo Inácio, convida a orar com o Evangelho e a reconhecer o Jesus vivo e ressuscitado na própria história cotidiana.
Assim, o itinerário pretende formar um olhar capaz de reconhecer a Deus não somente durante os momentos explicitamente religiosos, mas também naquilo que ocorre durante uma jornada de trabalho, nas relações, nas emoções e nas decisões.
“Fazer do cotidiano uma missão de amor”
A terceira etapa aborda as consequências de seguir a Jesus. O padre Fones propôs perguntar-se o que significa viver uma vida de entrega além das palavras: criar um filho, sustentar uma relação, perseverar em uma comunidade ou assumir responsável as tarefas cotidianas.
A referência é a vida entregue de Jesus e a experiência da Eucaristia como escola de uma existência que se oferece pelos outros. No entanto, o sacerdote esclareceu que o objetivo não é o heroísmo pessoal: “O foco não é nosso heroísmo, mas sim a missão”. A entrega cristã, explicou, adquire sentido quando se orienta para os outros e para uma missão de compaixão.
Por isso, o itinerário convida cada pessoa a se perguntar sobre sua própria vocação no momento concreto de sua vida: “A que me sinto chamado hoje?”. A resposta pode ser expressa de múltiplas maneiras: desde assumir um serviço em uma comunidade cristã ou na pastoral social até desempenhar melhor o próprio trabalho ou contribuir positivamente no ambiente cotidiano. “Para fazer do cotidiano uma missão de amor”, sintetizou o padre Fones.
Experiência pessoal que nunca é individual
Embora o caminho comece a partir da experiência pessoal, o sacerdote jesuíta insistiu em que não se trata de um percurso individualista. O nono passo aborda precisamente a dimensão comunitária: a fé se vive diante dos outros e em relação com os outros.
A proposta compreende a Igreja como uma comunidade ampla e universal, chamada a reconhecer-se irmandada em Jesucristo e capaz de olhar como irmãos também para aqueles que estão além da Igreja Católica e até mesmo do cristianismo.
A experiência, portanto, não conclui ao completar nove etapas. O padre Fones explicou que se trata de um caminho circular, no qual se volta uma e outra vez sobre os mesmos temas para aprofundá-los a partir de novas experiências de vida. “Vamos em frente, mas voltamos aos mesmos temas uma e outra vez como uma experiência espiritual permanente”, apontou.
Proposta aberta a todos
Durante o diálogo, o diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa explicou que “O caminho do coração” está aberto a todos os carismas, comunidades e pessoas. Não é necessário abandonar os grupos ou espaços eclesiais de pertencimento para se incorporar.
Os materiais disponíveis na internet permitem conhecer as intenções mensais de oração e a oração de oferecimento. Para aqueles que desejam aprofundar no itinerário, o padre Fones recomendou entrar em contato com os responsáveis nacionais da Rede Mundial de Oração do Papa.
Segundo explicou, os países latino-americanos contam com um diretor ou diretora nacional que conhece o itinerário e pode orientar sobre as experiências presenciais e virtuais disponíveis, com a exceção de Honduras, que no momento da conferência ainda não contava com esta figura. Além disso, ressaltou que, ainda que exista uma proposta comum para o continente, cada país pode desenvolver a missão levando em conta suas próprias características culturais. Os materiais são de acesso livre e gratuito, enquanto que a vinculação com os escritórios nacionais permite acompanhar mais de perto a queles que desejam aprofundar.
“Reze com o Papa”, um convite mensal
Entre os recursos disponíveis está a campanha “Reze com o Papa”, que oferece a cada mês um vídeo em que o Santo Padre apresenta e ora pela intenção correspondente. O padre Fones ressaltou especialmente que o Papa Leão XIV quis gravar esses vídeos também em espanhol.
O sacerdote explicou que essa possibilidade constitui uma oportunidade particular para a América Latina e para as comunidades hispanohablantes: “Aproveitemos que podemos ouvi-lo e rezar com ele em espanhol”, convidou.
Para conhecer o itinerário e as possibilidades de participação, animou a consultar a página da Rede Mundial de Oração do Papa e localizar lá o escritório nacional correspondente.
Formar-se para transformar a vida
A conferência concluiu com um convite a aproveitar as distintas propostas de formação que oferece o centro do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam).
No encerramento, o padre Fones enfatizou que a formação é uma necessidade fundamental para a Igreja latino-americana. Não se trata apenas de adquirir conhecimentos ou acumular títulos, mas de permitir que a formação alcance a vida.
“Como vocês viram, trata-se de um itinerário formativo espiritual que não visa apenas ter mais ideias, mas sobretudo viver uma experiência”, disse. O propósito último, acrescentou, é “transformar-nos em melhores discípulos missionários para o serviço da missão de Jesus”.
Sob essa perspectiva, “O caminho do coração” propõe uma espiritualidade que começa no reconhecimento do amor de Deus, passa por uma relação pessoal com Jesus Cristo e desemboca em uma vida entregue aos outros e vivida em comunidade.
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