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Cultura afro-brasileira: a memória dos povos africanos que também construiu a identidade do Brasil

O quarto conversatório da Sala da Cultura e da Sinodalidade do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho abriu um espaço para conhecer a história, as expressões culturais e a dimensão religiosa da população afrodescendente no Brasil. O professor Rosenilton Oliveira chamou a reconhecer que boa parte dos símbolos da identidade brasileira têm raízes africanas e indígenas, em uma história marcada também pela desigualdade e pela discriminação.
11 de setembro de 2026 by
Cultura afro-brasileira: a memória dos povos africanos que também construiu a identidade do Brasil
Micaela Alejandra Díaz Miranda
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A cultura afrobrasileira foi o tema do quarto conversatório da Sala da Cultura e da Sinodalidade, uma iniciativa do sonho cultural do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho que acompanha o caminho para o Encontro Pastoral Afro-Americano de 2028, que terá como sede o Brasil.

O encontro foi coordenado pelo Secretariado de Pastoral Afro-Americana e Caribenha e contou com a participação do professor e doutor Rosenilton Oliveira, investigador e docente da Universidade de São Paulo, que desenvolveu parte de sua trajetória junto às comunidades da pastoral afrobrasileira e estudou suas celebrações, romarias, congressos, expressões de espiritualidade e cultura negra na Igreja.

Antes de sua exposição, o padre Wilfrido Mosquera apresentou alguns dados sobre Brasil, país que acolherá o Encontro Pastoral Afro-Americano de 2028. Ressaltou sua dimensão continental, com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, uma população que para 2026 se estima em 214,2 milhões de habitantes e uma diversidade cultural vinculada também à presença da Amazônia e de numerosos povos originários.

O sacerdote lembrou ainda que cerca de 55,5 % da população brasileira é afrodescendente e apresentou este encontro como uma primeira aproximação ao caminho de preparação para 2028: “este encontro já é como que esse abreboca” para começar a conhecer e saborear o que virá.

Caminho de encontros sobre cultura

A Sala de Cultura e Sinodalidade já havia abordado outros aspectos da realidade latino-americana. O primeiro diálogo, realizado em Madrid, foi dedicado ao magistério latino-americano e à cultura e foi coordenado pela Rede de Cultura Popular.

Em junho se desenvolveu um encontro sobre cultura e educação, coordenado pela Rede de Pastoral Educativa e Pacto Global. Em julho, o tema foi a cultura e a mulher afro-americana, sob a coordenação da Rede de Liderança.

Este quarto conversatório foi dedicado especificamente à cultura afro-brasileira e foi acompanhado por uma oração de monsenhor Zanoni Demettino Castro, arcebispo metropolitano de Feira de Santana. Em sua invocação pediu que a Santíssima Trindade, “fonte de comunhão, de diversidade, de vida”, ilumine o encontro e abra os corações ao diálogo, a memória, a fé e a esperança dos povos afrodescendentes. O momento de oração foi acompanhado por uma canção dedicada à Nossa Senhora Aparecida, apresentada como “Nossa Senhora Negra” e “soberana Quilombola”, antes de dar passo à exposição do professor Rosenilton.

Identidade construída também a partir da África

O pesquisador começou sua exposição reconhecendo a dimensão continental do Brasil e sua enorme diversidade de povos e culturas. Ao mesmo tempo, advertiu que essa riqueza convive com estruturas sociais ainda marcadas pela desigualdade. Sua reflexão apresentou a identidade e a memória negra das pessoas afrodescendentes no Brasil e mostrou como os povos africanos, trazidos ao país em condições de escravização, participaram decisivamente na construção da sociedade e da cultura brasileiras.

Para organizar sua exposição, levantou duas grandes questões: a construção da identidade nacional e cultural brasileira e alguns dos elementos estruturais que permitem compreender essa identidade. A partir daí, propôs pensar também as possibilidades e os desafios de uma pastoral e de uma ação eclesial junto à população afrobrasileira.

O professor situou parte de sua análise no período posterior à proclamação da República, em 1889, quando o Brasil atravessava transformações sociais e políticas. Apenas um ano antes, em 1888, havia terminado oficialmente a escravidão. No entanto, apontou que a abolição não foi acompanhada por políticas de reparação frente às consequências de séculos de escravização. As respostas institucionais de reconhecimento e valorização das populações africanas chegariam muito depois, especialmente a começos do século XXI.

Nação que buscou seus símbolos

A começos do século XX, explicou Oliveira, as elites brasileiras se perguntavam como construir uma nova sociedade e uma identidade nacional nos trópicos. O Brasil havia desenvolvido historicamente um olhar voltado para a Europa e tendia a valorizar elementos provenientes da França, Inglaterra e outros países europeus, mientras deixava em segundo plano as culturas presentes em seu próprio território. Entre elas estavam as culturas dos povos originários e de as populações africanas.

O movimento modernista, particularmente a partir de 1922, desempenhou um papel importante na construção de uma narrativa sobre o Brasil e no reconhecimento de determinados elementos como símbolos da cultura nacional. Mais adiante, durante os governos de Getúlio Vargas, também se promoveu uma construção de identidade nacional, embora dentro de um período de fortes contradições políticas e de ditadura. Nesse processo, cultura e identidade nacional chegaram a ser entendidas praticamente como uma mesma realidade. A imagem do Brasil para o exterior ficou associada a uma enorme força cultural.

Oliveira lembrou, por exemplo, as investigações folclóricas realizadas por Mário de Andrade, que percorreu distintas regiões do país para estudar a diversidade e riqueza das expressões culturais brasileiras. Mas esse reconhecimento tinha uma contradição: se valorizavam determinados elementos culturais, mientras as pessoas e os povos que os haviam produzido continuavam sendo discriminados.

A cultura foi valorizada, mas nem sempre aqueles que a criaram.

O professor utilizou a capoeira como um dos exemplos mais claros. A capoeira passou a ser reconhecida como um elemento da cultura brasileira e posteriormente como deporte nacional, mas aqueles que a praticavam, na sua maioria pessoas negras, f foram perseguidos. e considerados até mesmo sujeitos a infrações penais durante boa parte da primeira metade do século XX.

Algo semelhante ocorreu com o samba. Este ritmo de origem africana foi progressivamente incorporado à imagem do Brasil e valorizado como expressão nacional, enquanto os homens e mulheres que o interpretavam foram perseguidos até a década de 1940. Dessa forma, Oliveira mostrou uma das contradições que atravessam a construção da identidade brasileira: “temos um movimento de valorizar elementos da cultura africana, mas não temos o mesmo movimento de valorizar as pessoas, os sujeitos que o produzem.”.

Essa tensão também pode ser observada no patrimônio cultural. O pesquisador explicou que quando se fala do patrimônio cultural brasileiro é necessário reconhecer as matrizes africanas e dos povos originários que o constituem. “Quando nós falamos da cultura brasileira, estamos falando também da presença do povo vindo da África.”, apontou.

A presença africana na cultura brasileira.

Para Oliveira, muitos dos símbolos que atualmente são reconhecidos como expressões da “brasilidade” têm uma forte presença africana e indígena. A música, a dança, a gastronomia, a literatura, as artes e as expressões religiosas fazem parte deste patrimônio. A capoeira, o samba, o carnaval e a feijoada são alguns dos exemplos mais conhecidos. Na música, a influência africana está presente em ritmos, batidas, formas de dançar e letras de canções. Essa influência também alcança expressões como o sertanejo, o pop, o rock e o funk produzidos no Brasil

O pesquisador relacionou além disso essas expressões com outras experiências culturais da América Latina, mencionando semelhanças com manifestações presentes em Cuba, Colômbia e Uruguai.

Na gastronomia, destacou a feijoada e o uso de ingredientes como o óleo de palma, vinculados a tradições provenientes da África. Na literatura, ressaltou a influência da cultura afrobrasileira em autores como Jorge Amado, así como a obra de escritoras contemporâneas como Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus. Também se referiu à língua portuguesa falada no Brasil. Segundo explicou, a influência africana não se limita à incorporação de palavras provenientes de diferentes línguas, pois alcança a construção de frases, a fonética e outros aspectos da língua brasileira, com uma presença particularmente importante das línguas do complexo banto.

Patrimônio que também tem rostos negros

A exposição abordou igualmente o patrimônio cultural material. Oliveira apresentou como exemplo a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, reconhecida por seu patrimônio arquitetônico e pela riqueza do barroco brasileiro. No relato tradicional sobre este patrimônio costumam aparecer os mestres e artistas europeus, entre eles portugueses, espanhóis, italianos e franceses. No entanto, o pesquisador apontou a necessidade de reconhecer a participação dos africanos e afrodescendentes que trabalharam em sua construção, tanto do esforço físico quanto de suas capacidades intelectuais e artísticas.

Pintores, artesãos e outros trabalhadores africanos participaram na construção de igrejas, casas, ornamentações e outras expressões do barroco brasileiro. Para o pesquisador, essa presença deve ser incorporada à memória cultural do país.

Outro espaço de memória apresentado foi o sítio arqueológico do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, antigo porto por onde ingressaram numerosas pessoas trazidas da África em condição de escravização. Hoje, o lugar permite manter visível essa parte da história brasileira.

Mais de cinco milhões de africanos chegaram ao Brasil

Oliveira explicou que os dados históricos sobre o número exato de africanos trazidos à América não são precisos, mas apontou que durante os séculos de tráfico escravista o Brasil recebeu aproximadamente a metade das pessoas africanas levadas às Américas. Segundo os dados apresentados durante o conversatório, entre 1526 e 1870 foram trasladadas cerca de dez milhões de pessoas e cerca de cinco milhões chegaram ao Brasil.

Esta dimensão ajuda a compreender, segundo o pesquisador, por que a população de origem africana e os povos originários têm um peso tão importante na formação histórica do país. No entanto, os censos e as categorias utilizadas para classificar a população durante boa parte da história brasileira contribuíram para apresentar uma realidade diferente. O pesquisador explicou que até a década de 1990 os registros demográficos podiam mostrar uma maioria de população autodeclarada branca, relacionada com a maneira como se realizava a classificação por cor.

Atualmente, cerca de 56 % da população brasileira, mais de 110 milhões de pessoas, se reconhece como afrodescendente, segundo os dados compartilhados durante a exposição.

Povos africanos e povos originários

A presença africana no Brasil também não pode ser entendida como uma experiência homogênea. Oliveira apresentou a diversidade de povos africanos trazidos para o país, entre eles grupos das regiões historicamente identificadas como sudanesas e povos de África central e meridional. Mencionou, entre outros, os nagô, ketô, ijexá e jeje, assim como a forte presença yorubá, especialmente no nordeste brasileiro e em Salvador da Bahia.

Essa diversidade deixou marcas nas línguas, na música, na gastronomia, nas danças e nas expressões religiosas. A presença dos orixás, as tradições musicais e manifestações culturais da Bahia são alguns dos exemplos mencionados.

A essa herança se soma a presença dos povos originários. Oliveira lembrou que O Brasil conta com cerca de 190 povos indígenas e mais de 200 línguas originárias, embora o português continue sendo a única língua oficial em nível nacional. Para o pesquisador, essa realidade apresenta o desafio de reconhecer também as línguas indígenas como parte da identidade e da cultura do país.

A dimensão religiosa da memória afrobrasileira

Um dos aspectos que foi exposto foi a relação entre cultura e experiência religiosa. Oliveira explicou que, assim como ocorreu em outros países da América Latina e no Caribe com forte presença africana, no Brasil surgiram religiões de matriz africana.

Essas experiências religiosas se constituíram a partir de processos de transformação e diálogo com o catolicismo e com as matrizes culturais indígenas. Por isso, o pesquisador pediu para evitar uma leitura simplista baseada unicamente na ideia de sincretismo. “Não estou falando aqui de uma ideia de sincretismo ou de uma falsa vivência religiosa”, esclareceu.

Sua proposição é que a experiência religiosa está intimamente vinculada com a experiência cultural dos povos. Por isso, assim como as religiões africanas se transformaram no Brasil, também o catolicismo vivido eno país recebeu a influência das culturas africanas e indígenas. “Se há uma transformação das religiões africanas no Brasil, há também uma transformação do catolicismo que se vive no Brasil”, disse. Nesse sentido, as formas de celebrar, as expressões de fé e a relação com o sagrado também fazem parte da memória cultural afrobrasileira.

Os espaços religiosos como lugares de preservação

Oliveira destacou especialmente o papel dos terreiros de Candomblé na preservação de elementos culturais africanos durante os séculos de escravização e depois de eles. Durante quase quatro séculos, lembrou, a população de origem africana sofreu escravização e seus valores e produções culturais foram desprezados. Nesse contexto, esses espaços religiosos permitiram conservar símbolos, conhecimentos, música, filosofia e formas de compreender o mundo.

“Quando nós hoje falamos da cultura africana no Brasil, temos que reconhecer que foi graças à religiosidade africana” que muitos desses símbolos puderam ser preservados, explicou.

Por isso, considerou que não é possível pensar a presença afrodiáspórica no Brasil sem reconhecer a importância desses espaços e a relação com o sagrado.

Cultura diversa que prepara o caminho para 2028

A exposição também percorreu outras expressões da cultura brasileira, entre elas as indumentárias das baianas, cujos vestidos, adornos, cores e formas de cobrir a cabeça contêm referências culturais e cosmológicas relacionadas com a autoridade e a identidade. No caso da capoeira, distinguia entre a capoeira Angola, relacionada de maneira mais direta com tradições da África central, e a capoeira regional, que incorporou transformações e elementos acrobáticos posteriormente difundidos internacionalmente.

Também abordou o carnaval, especialmente as escolas de samba do sudeste. Embora o carnaval seja uma celebração estendida por todo o Brasil e seja reconhecido como uma das principais expressões culturais nacionais, Oliveira lembrou que existem otras festas regionais de enorme importância, como o Festival de Parintins en o norte e as festas de junho dedicadas a são João, são Antônio e são Pedro no nordeste.

A diversidade dessas expressões mostra que a cultura brasileira não pode ser reduzida a um único símbolo. Trata-se de uma construção plural na qual confluem as matrizes africanas, indígenas e europeias, com uma presença africana que, segundo o pesquisador, tem sido decisiva e muitas vezes insuficientemente reconhecida.

Olhar para a pastoral afro-americana

O encontro faz parte do caminho de preparação para o Encontro Pastoral Afro-Americano de 2028 no Brasil e tem o fim de gerar espaços de formação e diálogo sobre a diversidade cultural da América Latina e do Caribe.

A Sala de Cultura e Sinodalidade deixa aberta uma reflexão que transcende as fronteiras do Brasil: reconhecer as raízes africanas da cultura latino-americana também implica recuperar a memória dos povos que a construíram, suas espiritualidades, suas lutas e suas contribuições à vida da Igreja e das sociedades da região.

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