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Monsenhor José Domingo Ulloa pede converter o cuidado em decisões e ações concretas

Ao final do IV Encontro Latino-Americano e Caribenho de Responsáveis pela Cultura do Cuidado, o arcebispo José Domingo Ulloa pediu aos bispos que assumissem pessoalmente a responsabilidade pastoral de prevenir abusos, ouvir as vítimas e garantir comunidades seguras, transparentes e confiáveis.
3 de setembro de 2026 by
Monsenhor José Domingo Ulloa pede converter o cuidado em decisões e ações concretas
Micaela Alejandra Díaz Miranda
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O IV Encontro Latino-Americano e Caribenho de Responsáveis pela Cultura do Cuidado concluiu com um chamado a toda a Igreja da América Latina e do Caribe para converter a prevenção e a proteção das pessoas em uma responsabilidade pastoral compartilhada. Em sua mensagem de encerramento, o arcebispo do Panamá e segundo vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), Mons. José Domingo Ulloa Mendieta, enfatizou a necessidade de passar da aplicação de protocolos para uma transformação das atitudes, relações e estruturas eclesiais.

Sob o lema “A cultura do cuidado na Igreja da América Latina e do Caribe: um olhar a partir da Magnifica Humanitas”, o encontro reuniu bispos e responsáveis das Conferências Episcopais, representantes da Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR), Cáritas da América Latina e do Caribe, a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, assim como integrantes de distintas comissões, redes e organismos eclesiais.

Mons. Ulloa agradeceu, em nome do Celam, os dias de “escuta, reflexão e fraternidade” e destacou que a diversidade de participantes enriqueceu o encontro. A seu juízo, a presença conjunta das distintas expressões da Igreja confirma que “a cultura do cuidado é uma responsabilidade compartilhada e uma missão de toda a Igreja”.

O papel dos bispos não pode ser delegado

Um dos principais chamados da mensagem foi dirigido aos bispos. O arcebispo de Panamá advertiu que, embora as Igrejas possam contar com profissionais, comissões e equipes especializadas, a responsabilidade pastoral última cabe àqueles que exercem o ministério episcopal. “Esta responsabilidade não se delega”, disse. E acrescentou: “Não basta aprovar protocolos ou receber relatórios. Temos que nos envolver, ouvir, acompanhar, supervisionar e tomar decisões”.

Para Mons. Ulloa, os equipes encarregados da prevenção precisam do respaldo efetivo de seus pastores, enquanto as comunidades devem perceber que a proteção de as pessoas constitui uma prioridade pastoral. Ao mesmo tempo, destacou que as vítimas precisam encontrar uma Igreja disposta a ouvir e agir frente ao que se denuncia. Nesse sentido, sustentou que o compromisso episcopal deve se expressar em ações como a formação permanente, o funcionamento adequado das estruturas, a escuta responsável, a transparência, o acompanhamento e a prestação de contas.

“Onde houver algo a corrigir, tenhamos a humildade de reconhecê-lo; donde houver uma ferida, a proximidade para acompanhá-la; e onde for necessário tomar decisões difíceis, a coragem para fazê-lo”, expressou. O arcebispo relacionou essa responsabilidade diretamente com o exercício do ministério episcopal: “Isto também é pastorear”. E acrescentou que a autoridade dos bispos encontra “uma de suas expressões mais evangélicas” quando se coloca a serviço da dignidade e da proteção das pessoas confiadas a seu cuidado.

O que devo fazer eu como bispo?

Ao retornar a suas dioceses, Mons. Ulloa propôs que cada bispo leve consigo a pergunta: “o que devo fazer eu, como bispo, para que minha Igreja particular seja cada vez mais segura, transparente e confiável?”.

A reflexão do encontro, apontou, permitiu voltar a uma convicção fundamental à luz da encíclica Magnifica humanitas: a pessoa e sua dignidade inviolável devem ocupar o centro. “Essa convicção deve orientar nossas decisões, nossas estruturas, nossas relações e nossa ação evangelizadora”, disse.

Com esse enfoque, a cultura do cuidado não pode se reduzir a procedimentos administrativos. O desafio, explicou, consiste em fazer com que se torne uma forma concreta de viver e exercer a missão eclesial.

“Sua dor nos importa”: o chamado a ouvir as vítimas

A mensagem de encerramento reservou um lugar especial para as vítimas e sobreviventes de abusos. Mons. Ulloa manifestou que a Igreja deve dirigir-se a elas “seu olhar e seu coração”, reconhecendo que seus testemunhos interpelam toda a comunidade eclesial. 

“A vocês queremos dizer com humildade: sua dor nos importa, sua palavra nos interpela e sua história nos compromete. Não queremos que fiquem sozinhos”, exclamou.

O arcebispo agradeceu também a quem teve a coragem de falar e contribuir para que a Igreja possa reconhecer realidades que, em algumas ocasiões, “não soubemos ou não quisemos ver”. Diante dessas situações, apontou que a resposta deve incluir a escuta, o acompanhamento, a busca pela verdade, a atuação com justiça e a reparação “na medida do possível”.

Dos protocolos a uma cultura que transforme a Igreja

“Nosso desafio é claro: passar dos protocolos a uma verdadeira cultura do cuidado. Os protocolos são necessários, mas não suficientes”, sustentou.

Para alcançar esse objetivo, considerou necessário transformar as atitudes, as relações e as estruturas até que o cuidado deixe de ser apenas um conjunto de normas e procedimentos e se torne “uma verdadeira maneira de ser Igreja”.

O arcebispo também valorizou a diversidade de realidades que convivem na América Latina e no Caribe. As regiões do Caribe, América Central e México (CAMEX), os países bolivarianos e o Cone Sul apresentam contextos diferentes, mas compartilham uma mesma missão em matéria de cuidado e proteção. “Esta rede é uma fortaleza: aprendamos uns com os outros, apoiemo-nos e avancemos juntos”, apontou.

Esperança para reconstruir a confiança

Mons. Ulloa convidou os participantes a retornar às suas Igrejas particulares com os rostos e as histórias ouvidas durante estes dias e com uma responsabilidade renovada. O objetivo, disse, é que cada pessoa, “especialmente as crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis”, encontre comunidades onde sua dignidade seja respeitada e protegida.

A mensagem finalizou com um convite a retornar às comunidades com esperança: “Não porque tudo esteja resolvido, mas porque acreditamos que é possível curar feridas, reconstruir a confiança e fazer crescer uma Igreja mais humilde, próxima e transparente”.

Mons. Ulloa expressou ainda um desejo para as comunidades eclesiais: “Que nenhuma vítima encontre silêncio, indiferença ou solidão”. Finalmente, confiou o caminho percorrido a Maria, Mãe da Igreja, e pediu ao Senhor “a coragem de transformar o que foi refletido nestes dias em decisões e ações concretas”.

“Que a cultura do cuidado seja cada vez mais um rosto visível do Evangelho em nossa Igreja”, concluiu o segundo vice-presidente do Celam.

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