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Redes eclesiais latino-americanas apresentam reflexão sobre o diálogo justo em contextos de extrativismo

O documento “Diálogo justo e em equidade para a transformação de conflitos” reúne a experiência pastoral de redes eclesiais que acompanham comunidades afetadas por atividades extrativas e propõe seis condições para que o diálogo contribua realmente para a justiça, a reconciliação e a transformação dos conflitos socioambientais.
1 de setembro de 2026 by
Redes eclesiais latino-americanas apresentam reflexão sobre o diálogo justo em contextos de extrativismo
Micaela Alejandra Díaz Miranda
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As redes eclesiais latino-americanas que acompanham comunidades em territórios afetados pelo extrativismo apresentam o documento “Diálogo justo e em equidade para a transformação de conflitos”, uma reflexão que quer contribuir para o discernimento da Igreja sobre as condições necessárias para construir processos de diálogo capazes de responder às desigualdades de poder e às situações de violação de direitos que atravessam numerosos territórios da América Latina.

O documento surge de uma iniciativa de Igrejas e Mineração, a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), Pax Christi Internacional, a Rede Gran Chaco e Aquífero Guaraní (Regchag), a Rede Eclesial Mesoamericana (Remam) e a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP), através de seus bispos presidentes, representantes e consultores. A proposta se desenvolve a partir de uma perspectiva de comunhão, discernimento, colaboração e sinodalidade, incorporando as vozes de comunidades que vivem de maneira direta os impactos do extrativismo.

O documento parte de um diagnóstico em meio à crise climática e ambiental e à convergência de interesses econômicos, financeiros, energéticos e militares que, segundo as redes, contribuem para dinâmicas de agressão, despojo e saque de territórios.

Ouvir aqueles que vivem os conflitos

Uma das propostas iniciais do documento sugere ampliar o olhar sobre os processos de transformação social. Diante da possibilidade de concentrar os esforços em quem possui maior capacidade de decisão política, econômica e financeira, as redes eclesiais propõem começar por ouvir aqueles que sofrem as consequências dos modelos de desenvolvimento vigentes.

Esta escuta é apresentada como um espaço de discernimento, esperança e renovação histórica. O documento recupera, nesse sentido, uma expressão do Papa Leão XIV: “A história é devastada pelos poderosos, mas é salva pelos humildes, os justos e os mártires”.

As redes sustentam que as transformações requerem também ouvir os processos de resistência não violenta e organização desenvolvidos pelas comunidades afetadas. O texto identifica entre as consequências do extrativismo a contaminação, os deslocamentos, os conflitos, a violação de direitos e diversas formas de violência. A partir do acompanhamento pastoral nestes territórios, levanta perguntas sobre os interesses que estão detrás das agressões contra as comunidades e sobre as estruturas que as sustentam.

Seis condições para um diálogo transformador

O documento avisa que a palavra “diálogo” pode ter significados diferentes segundo a posição que ocupam os atores envolvidos em um conflito. Por isso, considera necessário examinar as condições concretas nas quais se desenvolvem esses processos.

As redes eclesiais identificam seis dimensões fundamentais para um diálogo orientado à justiça e à transformação dos conflitos. A primeira é reconhecer as assimetrias de poder. O documento aponta que empresas, governos e comunidades podem contar com capacidades de decisão, acesso à informação e recursos muito diferentes. Por isso, colocar todos os atores em uma mesma mesa sem considerar essas desigualdades pode limitar uma participação verdadeiramente justa.

A segunda dimensão propõe o papel da Igreja como garantidora da voz das vítimas. O texto sustenta que o compromisso eclesial com o diálogo nasce da opção preferencial pelos empobrecidos e da dignidade das pessoas mais vulneráveis como critério para o discernimento social e pastoral.

Autoridade, informação e participação

Em terceiro lugar, propõe dar autoridade, voz e oportunidade de apresentar propostas às vítimas. As comunidades afetadas, propõe o documento, requerem espaços reais de expressão direta e reconhecimento dentro dos processos de escuta e diálogo. Incorpora também as “vítimas não humanas” da crise socioambiental. A partir da ecologia integral, as redes chamam a ouvir tanto o clamor dos povos empobrecidos quanto o dos ecossistemas, espécies e territórios afetados.

A quarta condição é garantir a transparência e o acesso universal à informação. O documento alerta que a falta de informação adequada e acessível pode se tornar um obstáculo para que as comunidades defendam seus direitos frente a grandes projetos corporativos. Neste apartado se mencionam ferramentas como o princípio da precaução, a inversão do ônus da prova e o consentimento livre, prévio e informado.

A quinta dimensão propõe situar o diálogo nos territórios em conflito. Para as redes, os processos de diálogo requerem se vincular aos lugares donde as comunidades experimentam os impactos, defendem seus territórios e formulam demandas de prevenção, reparação ou mitigação.

Respeito aos direitos humanos e socioambientais

O documento também chama a atenção para determinadas iniciativas apresentadas como soluções frente à crise socioambiental, entre elas a financiarização da natureza, a expansão da mineração vinculada à transição energética e algumas formas de monocultura energética. As redes alertam sobre o risco de que essas propostas reproduzam dinâmicas de exploração quando são desenhadas longe dos territórios e sem participação efetiva das comunidades.

A sexta dimensão está relacionada com o monitoramento e controle das ações empresariais por meio das leis e das instituições públicas. O texto sustenta que o respeito aos direitos humanos e socioambientais requer marcos normativos eficazes, instituições capazes de supervisioná-los e mecanismos que permitam exigir seu cumprimento.

Neste âmbito, as redes sinalizam sua participação em iniciativas voltadas a promover um Tratado Vinculante sobre Empresas e Direitos Humanos no âmbito de nações Unidas e o fortalecimento de mecanismos de devida diligência corporativa.

Reflexão a partir da sinodalidade

A perspectiva sinodal atravessa a elaboração do documento. As redes apresentam essa reflexão como uma contribuição construída a partir da comunhão, a corresponsabilidade, a escuta e o discernimento, com especial atenção às vozes provenientes das periferias.

Em suas conclusões, reconhecem os caminhos de escuta e diálogo que a Igreja tem empreendido nos últimos anos e ressaltam o potencial do processo sinodal para gerar encontros e práticas pastorais capazes de responder aos desafios contemporâneos. O documento propõe que esses processos mantenham uma atenção especial às assimetrías de poder, as vítimas humanas e não humanas e as comunidades que vivem cotidianamente os conflitos socioambientais.

Além disso, recupera a proposta do Papa Francisco de um “multilateralismo de baixo”, entendido como una manera de acercar los procesos de diálogo y toma de decisiones a las realidades de los territorios y al protagonismo de quienes los habitan y los cuidan.

Iglesia que acompaña y transforma

La reflexión concluye con una invitación a construir una cultura del encuentro que permita abordar los conflictos desde la verdad, la justicia, la dignidad de las personas y el cuidado de la Casa Común.

Para las redes eclesiales, el diálogo adquiere su verdadero sentido cuando contribuye a transformar relaciones sociales de desigualdades y permite avanzar hacia una mayor justicia y equidad en la distribución del poder.

El documento “Diálogo justo y en equidad para la transformación de conflictos”, elaborado en septiembre de 2026, queda a disposición de comunidades, agentes pastorales, organizaciones eclesiales y otros actores interesados en promover procesos de diálogo relacionados con la defensa de los territorios, los derechos humanos y el cuidado de la Casa Común.

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