O superlotação, a violação de direitos e o endurecimento das políticas penitenciárias agravam a crise que atravessam as prisões latino-americanas. Assim alertou o sacerdote argentino José Miguel Marengo, capelão penitenciário no Peru.
Marengo participou em Bogotá do encontro continental da Equipe Dinamizadora da Pastoral Carcerária, que reuniu de 31 de agosto a 4 de setembro representantes nacionais e representantes do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam).
Em entrevista com ADN Celam, Marengo afirmou que as prisões são um espelho das desigualdades sociais e defendeu uma pastoral que, além de acompanhar, tenha capacidade de influenciar as instituições.
Prisões que refletem as feridas sociais
Marengo, que também acompanha a pastoral carcerária da diocese de Carabayllo, falou sobre vários dos problemas que atravessam os sistemas penitenciários da região: prisões superlotadas, militarização, penas mais severas, redução da idade de imputabilidade e corrupção.
“Não, são direitos”, enfatizou Marengo ao questionar que as garantias fundamentais das pessoas privadas de liberdade sejam apresentadas como concessões ou benefícios. O sacerdote chamou assim a não perder de vista as causas sociais que também estão por trás da crise penitenciária.
“Quando uma pessoa cai na prisão é porque alguém falhou na sociedade, na família, na escola, no Estado, na Igreja, alguém esteve ausente”, afirmou.


Uma pastoral que também deve incidir
Para o sacerdote da Ordem Trinitária, a missão da Pastoral Carcerária transcende os muros das prisões e o acompanhamento religioso, pois inclui as famílias, o pessoal penitenciário e a incidência perante organismos do Estado.
Além disso, definiu a Pastoral Carcerária como “a imagem, a presença da Igreja no mundo da prisão” e destacou que seu trabalho também inclui acompanhar processos perante as instituições de justiça quando as pessoas privadas de liberdade ficam sem acompanhamento ou enfrentam dificuldades para acessar seus direitos.
O religioso defendeu uma presença pastoral que atenda de maneira integral as necessidades de quem está privado de liberdade. “Não é somente o plano espiritual, mas também é buscar toda a realidade”, afirmou, ao explicar uma missão centrada na dignidade e no desenvolvimento humano integral.

Formação e articulação continental
Um dos principais resultados do encontro foi a implementação da Equipe Dinamizadora Continental, que buscará unir os esforços das pastorais carcerárias da América Latina, fortalecer a formação de seus agentes e promover ações comuns em favor das pessoas privadas de liberdade.
O especialista chamou a fortalecer o lugar da Pastoral Carcerária dentro das dioceses, garantir recursos para seu trabalho e ampliar a formação dos agentes pastorais, muitos deles voluntários.
Diante das dificuldades que enfrenta esta pastoral, o sacerdote pediu para manter o compromisso e adentrar onde a exclusão é mais profunda. “Temos que não ter medo de sair da costa, da tranquilidade e nos meter mais adentro”, afirmou.
Finalmente, o sacerdote situou o acompanhamento às pessoas privadas de liberdade no centro do compromisso cristão. “Lembre-se dos presos como se você estivesse preso com eles”, recordou, e assegurou que essa sensibilidade “é um dom de Deus. Não é uma opção pessoal”.
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