Na questão migratória, os governos devem buscar um ponto intermediário, porque “não se trata de escolher entre segurança e humanidade, mas de encontrar o ponto onde ambas se sustentam mutuamente”, sugere Alessandra Santopadre da Arquidiocese de Montreal (Canadá), em entrevista com ADN Celam.
Esta laica, quien es asistente de la Oficina de Comunidades culturales y rituales de la arquidiócesis de Montreal, será panelista, este 27 de agosto de 2026, en el conversatorio “Una voz renovadora: buenas prácticas pastorales de la Iglesia en la defensa de los derechos humanos de las personas migrantes”, organizado por el Celam y organizaciones eclesiales.
Afirmou que a migração “não é um problema a resolver, é uma realidade humana a acompanhar”, porque, a partir de sua experiência como agente de pastoral, todos os dias vê o rosto concreto desse fenômeno: famílias, histórias, esperanças e “também muita dor”, acrescentou.
Por isso, acredita firmemente que o maior desafio para a Igreja, para os governos e para a sociedade civil são as políticas migratórias ordenadas, mas compassivas, cooperação real com os países de origem.
Tudo isso para que “a migração seja uma opção e não uma obrigação, e uma denúncia constante e corajosa frente àqueles que violam os direitos humanos, seja através da violência direta ou da indiferença política”.
No final, – indica Santopadre – como Igreja, “nossa tarefa é muito simples de nomear e muito exigente de viver: acolher, proteger, promover e integrar. E fazemos isso convencidas de que em cada pessoa migrante há uma história sagrada que merece ser ouvida, não silenciada”.
No final, – indica Santopadre – como Igreja, “nossa tarefa é muito simples de nomear e muito exigente de viver: acolher, proteger, promover e integrar. E fazemos isso convencidas de que em cada pessoa migrante há uma história sagrada que merece ser ouvida, não silenciada”.
Como Igreja, “nossa tarefa é muito simples de nomear e muito exigente de viver: acolher, proteger, promover e integrar.
Um fenômeno estrutural
Pergunta.- Desde sua experiência no escritório de comunidades culturais da arquidiocese de Montreal, como você descreve o fenômeno migratório não só no Canadá, mas na América do Norte?
Resposta.- Desde meu trabalho cotidiano no escritório, vejo que a migração na América do Norte já não é um fenômeno conjuntural, mas estrutural. Estamos falando de um corredor migratório que vai da América Central, do Triângulo Norte, do Haiti e da Venezuela, até os Estados Unidos e, cada vez mais, o Canadá.
Em Montreal, particularmente, temos visto nos últimos anos um aumento notável de solicitantes de asilo, muitos dos quais chegam depois de terem cruzado primeiro pelos Estados Unidos. Isso colocou à prova nossa capacidade de acolhimento: moradia, serviços de saúde, integração linguística, tudo tem sido exigido.
Mas além dos números, o que eu vejo dia a dia são histórias humanas: famílias que deixaram tudo por violência, por colapso econômico, por crise climática ou por falta de futuro em seus países. E acho que é importante dizer isso com clareza: enquanto não forem atendidas essas causas de fundo, esse fenômeno continuará crescendo, não importa quantas medidas restritivas sejam implementadas.
Nem números nem problemas a resolver
P.- Quais avanços ou contribuições você pode mencionar do trabalho da Igreja a esse respeito?
R.- A Igreja tem desempenhado um papel fundamental de acompanhamento direto. Em nosso escritório, por exemplo, oferecemos acolhimento, orientação básica, apoio psicossocial e, acima de tudo, espaços onde as comunidades migrantes podem manter sua identidade cultural e religiosa enquanto se integram à sociedade canadense.
Temos catequese em vários idiomas, celebrações litúrgicas que respeitam as tradições de cada comunidade, e redes de apoio mútuo entre as mesmas comunidades migrantes.
Também há um trabalho de incidência pública: a Igreja lembra constantemente, em um contexto onde às vezes predominam os discursos de medo, que estamos falando de pessoas com dignidade, não de números ou de ‘problemas’ a resolver. E há um trabalho ecumênico e inter-religioso muito valioso, com abrigos, bancos de alimentos e colaboração com outras confissões e organizações civis que compartilham essa missão de acolhimento.
Também há um trabalho de incidência pública: a Igreja lembra constantemente, em um contexto onde às vezes predominam os discursos de medo, que estamos falando de pessoas com dignidade, não de números ou de ‘problemas’ a resolver. E há um trabalho ecumênico e inter-religioso muito valioso, com abrigos, bancos de alimentos e colaboração com outras confissões e organizações civis que compartilham essa missão de acolhimento.
A Igreja lembra constantemente, em um contexto onde às vezes predominam os discursos de medo, que estamos falando de pessoas com dignidade, não de números ou de ‘problemas’ a resolver.
Regular com humanidade
P.- Qual é a sua opinião sobre as políticas restritivas e o uso como moeda de troca que os políticos dão ao tema migratório?
R.- Aqui quero ser cuidadosa, porque entendo que há visões legitimamente distintas sobre como gerir a segurança fronteiriça. Nenhum país tem a obrigação de ter fronteiras abertas sem regulação; isso é parte da soberania dos Estados e a Igreja reconhece.
O que me preocupa profundamente é quando a migração se torna moeda de troca eleitoral. Quando os políticos instrumentalizam o sofrimento humano para ganhar votos, gerando medo em vez de oferecer soluções reais, perde-se de vista a pessoa por trás de cada história.
Además, la experiencia demuestra que las políticas puramente restrictivas, sin vías legales alternativas, no detienen la migración: simplemente la empujan hacia rutas más peligrosas e irregulares, poniendo en mayor riesgo a quienes ya están en una situación de vulnerabilidad. Creo que el equilibrio está en regular con humanidad, no en excluir sistemáticamente.


Uma Igreja em saída
P.- Que opinião você tem do trabalho em matéria de migração da Igreja latino-americana?
R.- Tenho uma enorme admiração por esse trabalho. O Celam e as conferências episcopais da região construíram redes de pastoral de mobilidade humana verdadeiramente notáveis, como a Rede Clamor, que acompanha os migrantes ao longo de toda a rota migratória, não apenas no ponto de origem ou de destino.
Penso também nas casas do migrante ao longo do México, que oferecem abrigo, alimento e proteção àqueles que atravessam um dos trechos mais perigosos do continente.
Ese es un ejemplo de Iglesia en salida, una Iglesia que no espera a que las personas lleguen a la parroquia, sino que sale al camino, literalmente, para acompañar el sufrimiento humano. Documentos como los de Aparecida ya hablaban de la migración como un signo de los tiempos, y creo que la Iglesia latinoamericana ha sabido leer ese signo con mucha coherencia pastoral.
Esse é um exemplo de Igreja em saída, uma Igreja que não espera que as pessoas cheguem à paróquia, mas que sai ao caminho, literalmente, para acompanhar o sofrimento humano.
Respeitar processos locais
P.- Existe o direito de não migrar, como promover políticas integracionistas nesses países expulsadores, onde a pobreza é abundante, sem que isso implique violar a soberania?
R.- Sim, e eu acho que este é um ponto que é frequentemente esquecido. O Papa Francisco falou explicitamente sobre o direito de não emigrar, ou seja, o direito de toda pessoa de encontrar em seu próprio país as condições dignas para se desenvolver, sem ser obrigada a partir.
A chave, e aqui está o delicado, é distinguir entre cooperação e ingerência. É possível acompanhar processos de desenvolvimento nos países expulsadores —investimento responsável, comércio justo, fortalecimento institucional, apoio à sociedade civil, educação e saúde— sem impor modelos externos.
Isso requer que a cooperação seja solicitada, respeitosa dos processos locais, e que fortaleça as capacidades próprias desses países em vez de gerar novas dependências. Não se trata de decidir por esses países, mas de caminhar ao lado deles para que seus cidadãos tenham realmente a opção de ficar se assim desejarem.


Vocação profética
P.- Como também gerenciar e denunciar os regimes dictatoriais que violam direitos humanos?
R.- A Igreja tem uma tradição muito forte de denúncia profética. Pensemos em figuras como o monsenhor Óscar Romero, que deu sua vida para denunciar a violência estrutural em seu país. Essa tradição continua viva hoje através de relatórios de direitos humanos elaborados pelas conferências episcopais, o trabalho conjunto com organismos internacionais como a ONU ou a OEA, e o apoio a jornalistas e defensores de direitos humanos que muitas vezes trabalham em condições de altíssimo risco.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que isso exige um equilíbrio delicado: denunciar publicamente sem colocar em perigo as comunidades locais que continuam vivendo e trabalhando sob esses regimes.
Às vezes, a denúncia pública se complementa com gestões diplomáticas mais discretas. Mas, no fundo, a missão não muda: a Igreja não busca protagonismo político, busca ser voz de quem não tem voz, e isso implica manter essa vocação profética mesmo quando resulta incômoda ou arriscada.
Foto Capa: Alessandra Santopadre
Foto Capa: Alessandra Santopadre
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