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Conversatório: Quem escuta a dor precisa ser ouvido, acompanhado e cuidado dentro da Igreja

Ramírez alertou sobre o desgaste que pode gerar a escuta de relatos traumáticos e propôs medidas concretas para proteger aqueles que realizam essa missão.
20 de agosto de 2026 by
Conversatório: Quem escuta a dor precisa ser ouvido, acompanhado e cuidado dentro da Igreja
Luz Marina Medina Garavito
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Aqueles que acompanham pessoas afetadas por situações de abuso também precisam de espaços para serem ouvidos, acompanhados e cuidados. Assim o apontou o sacerdote Julio Ramírez, diretor da comissão de acompanhamento da diocese de Chiclayo, durante o conversatório “O cuidado de equipes multidisciplinares de escuta”.

O encontro, realizado nesta quarta-feira, 19 de agosto, surgiu como uma iniciativa da região andina para propiciar a troca de experiências entre as Igrejas da Colômbia, Equador, Venezuela, Peru e Bolívia.

O conversatório foi moderado por Diana María Guzmán Romero, coordenadora da Oficina Nacional para a Cultura do Cuidado da Conferência Episcopal da Colômbia, que ao iniciar a jornada chamou a atenção para um aspecto que costuma ficar em segundo plano: o cuidado de quem integra essas equipes. “Há uma consciência de autocuidado das pessoas que fazemos parte das equipes que estão a serviço da prevenção e atenção de abusos na Igreja?”, perguntou.


Escutar é acolher e acompanhar

O sacerdote descreveu a situação de quem se aproxima dessas equipes com medo, vergonha e dúvidas sobre se sua experiência será ouvida. Diante disso, apontou que o primeiro desafio é “demonstrar com presença concreta que sim importa o que o outro quer nos dizer”.

Mais do que uma instância administrativa, essas equipes representam, segundo Ramírez, “o rosto concreto da Igreja quando alguém vem dizer o que mais lhe dói”. Daí a importância de sua conformação multidisciplinar, com a participação de agentes pastorais e profissionais da psicologia, do direito, do âmbito canônico e da comunicação.

“Prevenir, acolher e acompanhar” são, para Ramírez, os três eixos desta missão. A prevenção busca evitar o dano; a acolhida implica receber sem julgar e sem condições; enquanto acompanhar significa permanecer perto, pois esses processos podem se prolongar durante meses e até anos.

Além disso, o especialista apontou que a conformação dessas equipes deve estar a cargo do bispo ou ordinário do lugar, com profissionais que tenham experiência e capacidade para ouvir “sem julgar”.


O risco da ferida de quem escuta

Além disso, trouxe à tona uma dimensão pouco visível desse trabalho: a dor de quem escuta. A exposição sustentada a relatos traumáticos pode gerar “trauma vicário” e “desgaste por compaixão”, especialmente quando não existem espaços para processar o vivido.

“A pessoa que escuta o sofrimento alheio, se não tem um espaço onde processar o que recebe, começa a acumular um peso que não é seu, mas que já não pode soltar”, explicou.

A essa carga se soma a solidão institucional. Os integrantes devem guardar confidencialidade sobre os casos que recebem e, ao mesmo tempo, precisam de espaços seguros para processar aquilo que os afeta. Para Ramírez, isso exige acompanhamento profissional, psicológico e espiritual.

Cuidar de quem cuida requer medidas concretas

Sob uma perspectiva pastoral, Ramírez vinculou o cuidado com a necessidade de parar e descansar. Citando Marcos 6,31 —“Venham vocês sozinhos a um lugar deserto e descansem um pouco”—, insistiu que a supervisão clínica deve fazer parte da vida regular das equipes e não se limitar a momentos de crise.

A supervisão, explicou Ramírez, permite aos integrantes da equipe “processar o que ouviram” e diferenciar aquilo que corresponde à pessoa acompanhada do que eles mesmos podem estar carregando. Junto a isso, propôs fortalecer a formação contínua em autocuidado por meio de ferramentas práticas para detectar o esgotamento, estabelecer limites e fechar jornadas difíceis.


O acompanhamento espiritual, acrescentou, também não pode se reduzir a “rezar mais”. Propôs que as dioceses ofereçam acompanhamento estável, retiros. “Não para pedir simplesmente forças para aguentar, mas para ter Deus nessa presença importante”, precisou.

Para Ramírez, o cuidado também deve fazer parte das condições institucionais nas quais trabalham essas equipes. Isso implica estabelecer limites ao número de casos, garantir espaços adequados e reconhecer o tempo que dedicam a essa missão. “A Igreja precisa construir uma cultura que cuide também de quem a sustenta de dentro”, afirmou.

Reconhecimento e compromisso institucional

A consolidação dessas equipes enfrenta, segundo Ramírez, desafios relacionados ao seu reconhecimento, formação e permanência. Em alguns casos, a conformação se reduz com o tempo; em outros, o caráter voluntário do serviço e as demais responsabilidades de seus integrantes dificultam a continuidade dos processos formativos.

O trabalho discreto dessas equipes não deve significar ausência de apoio institucional. Ramírez chamou para que bispos e responsáveis pastorais acompanhem e reconheçam aqueles que realizam essa tarefa, pois, como apontou, “uma pessoa saturada não trabalhará e além disso não vai poder ajudar a outra pessoa”.

A reflexão terminou com uma interpelação que resume o sentido do conversatório: “realmente nós estamos comprometidos com a cultura do cuidado?”. Para Ramírez, cuidar de verdade implica não deixar sozinhos aqueles que ouvem a dor dos outros, mas oferecer-lhes reconhecimento, acompanhamento e condições para continuar sua missão.





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