Chegar ao lugar da tragédia e encontrar uma realidade muito mais dura do que as primeiras imagens mostraram. Ouvir durante uma hora o relato de uma família. Sentar-se frente a pessoas que haviam perdido sua casa, seu trabalho o seus entes queridos. E descobrir, em meio aos escombros, pequenas semas de esperança.
Assim descreveu Marcus Tullius, durante o encontro da Rede Eclesial de Comunicação Latino-Americana e Caribenha (Reclac), a experiência que viveu durante uma semana na Venezuela, onde chegou poucos dias depois dos terremotos que afetaram o país.
O comunicador reconheceu que precisou de tempo para processar o que viveu. “Foi muito difícil para processar tudo o que eu vi, vivi e senti na Venezuela”, expressou. A experiência foi tão intensa que, segundo relatou, durante a viagem de volta do Brasil ao Chile se deparou com uma dificuldade inesperada: “Fiquei como um comunicador sem palavras diante de tudo que vi”.

Cenário que parecia de guerra
Conseguiu colocar por escrito o que viveu e publicou um testemunho sobre sua experiência como comunicador em campo. O texto, explicou, foi publicado graças à equipe do Celam e buscou mostrar uma realidade que, de sua perspectiva, superava amplamente o que havia podido conhecer através de os primeiros relatórios. “O que eu vi em campo era como se 10, 20 vezes mais” do que havia chegado inicialmente através das informações conhecidas no Brasil, apontou.
Tullius relatou que chegou à zona zero aproximadamente 30 dias depois dos terremotos. Lá, diante de edifícios completamente destruídos, experimentou um silêncio que descreveu como uma contemplação provocada pela magnitude da tragédia. “Fiquei em um silêncio de contemplação porque me faltavam as palavras”, lembrou.
Os edifícios desmoronados, as pessoas que permaneciam no local e as condições do terreno configuravam, em suas palavras, “um cenário de guerra”. O impacto não foi apenas visual. Também foi condicionado pelo ambiente e pelo cheiro que permanecia na área.

A presença de Deus em meio ao sofrimento
“Me custou como que dois dias para sair” daquela experiência, relatou. Mesmo com máscaras, o cheiro permanecia. Durante o primeiro dia perdeu a voz e começou a sentir dor na garganta.
Mas em meio daquela experiência de impotência também encontrou gestos que, para ele, expressavam “os pequenos sinais de Deus neste espaço de tanta tragédia”.
Um desses sinais apareceu nas palavras de quem se aproximava dos comunicadores: “Obrigado por vir. Obrigado por me ouvir. Eu precisava desabafar”.

Ouvir antes de perguntar
Um dos momentos que relatou como significativo foi o encontro com uma mulher que pediu para falar, mas que inicialmente não queria ser gravada. Tullius compartilhou que três jornalistas —María Eva, ele e uma colega americana que trabalhava em campo— permaneceram aproximadamente uma hora na casa da mulher, simplesmente ouvindo-a.
A mulher contou os segundos que viveu durante o terremoto, que pareceram eternos, junto com seu esposo e seu filho, uma criança autista não verbal. Em meio à emergência, lembrou, sua única reação junto com seu esposo foi se abraçar para se proteger. A mulher então expressou uma frase que ficou gravada na memória do comunicador: “Eu não posso morrer”.
Para Tullius, aquele testemunho revelava uma dimensão da tragédia que nem sempre aparece nos números: o medo e a responsabilidade de quem sente que não tem direito nem mesmo de pensar em si mesmo porque deve permanecer para proteger e acompanhar outros. “Uma experiência marcante, eu acho que é a mais brutal que eu já tive como comunicador, como ser humano”, disse ao recordar aquela semana.

A solidariedade como resposta
Junto ao dor, Tullius ressaltou a capacidade de resposta e resiliência da população venezuelana. Também valorizou a presença da Igreja e, particularmente, da Cáritas, em um contexto de uma complexa situação política e social.
Segundo explicou, a Cáritas conta com um respaldo tanto do governo quanto de setores da sociedade e, devido ao trabalho desenvolvido durante os últimos anos em meio da crise humanitária, pôde começar a responder apenas 12 horas depois da tragédia.
Na manhã do dia 25 de junho, a Cáritas já estava ativa junto às estruturas diocesanas e paroquiais, apoiando a população por meio da distribuição de alimentos, água, kits de higiene e outros insumos. Tullius explicou que, dentro da Cáritas, as organizações membros ativam suas redes a partir da convocação da Cáritas nacional do país afetado. É a organização nacional que coordena a resposta, mobiliza as outras e solicita o apoio necessário. No caso venezuelano, a Cáritas Venezuela assumiu essa coordenação.
“Após o tremor, o amor”
Como parte da resposta, a Cáritas Venezuela ativou a campanha “Após o tremor, o amor”, iniciativa que também foi assumida pela Cáritas América Latina. Tullius compartilhou durante o encontro algumas das cifras correspondentes ao primeiro mês de resposta: 21 toneladas de ajuda recebida e 86 % desses recursos já distribuídos. Também informou que 22.900 famílias haviam recebido um kit completo com alimentos, água e elementos de higiene, além de insumos médicos, medicamentos e outros materiais.
A campanha continua ativa e contempla diferentes formas de colaboração. Alguns países optaram por realizar coletas em suas comunidades, enquanto outros desenvolvem campanhas financeiras permanentes.
Para Tullius, a comunicação tem aqui uma tarefa decisiva: evitar que a tragédia desapareça da agenda uma vez que passam as primeiras semanas. “Isso acontece em todas as tragédias: nos primeiros dias todos estão falando. Na segunda, na terceira, na quarta semana diminui até que não se fale mais da Venezuela e nós não podemos não falar”, advertiu. A reconstrução, lembrou, será longa. No âmbito da Cáritas se contempla uma resposta de emergência de pelo menos um ano e meio para a aplicação dos fundos e para começar a pensar na reconstrução.
Emergência com múltiplas dimensões
A complexidade da situação venezuelana se tornou ainda mais evidente para Tullius durante sua permanência em campo. Segundo relatou, técnicos da Cáritas da Alemanha, Espanha e Estados Unidos que haviam participado anteriormente em respostas humanitárias, inclusive no terremoto do Haiti de 2010, consideraram que a situação encontrada na Venezuela era especialmente complexa.
A emergência, explicou, não afeta apenas aqueles que perderam suas moradias. Existe também uma população que vivia em condições de pobreza ao redor das zonas mais afetadas e que dependia laboralmente delas. Pessoas que trabalhavam no aeroporto, hotéis, clubes e cassinos ficaram sem emprego devido à paralisação dessas atividades.
A isso se soma a dimensão ambiental. Tullius relatou que pôde observar como, na zona costeira, os restos dos edifícios derrubados eram trasladados para o mar. “Então, além de todo o complexo da pobreza, também o problema ambiental”, apontou, especialmente pelas consequências para a vida dos pescadores que habitam na zona. O comunicador descreveu o impacto de observar edifícios completamente colapsados, com seus andares sobrepostos como uma estrutura comprimida, enquanto as equipes de resgate trabalhavam para identificar e facilitar as tarefas de busca.

O chamado do padre William Costa: “Não nos esqueçam”
Durante o encontro também interveio o padre William Costa, da Venezuela, que falou de uma experiência pessoal marcada pela tragédia. “Acho que tem sido muito significativo o apoio que temos recebido de toda a Igreja latino-americana”, expressou.
Para o sacerdote, a resposta recebida demonstra que a Igreja pode caminhar junto a um povo que sofre. “Somos uma Igreja sinodal que neste momento caminha também com um povo que sofre”, disse.
O padre Costa contou que ele mesmo foi afetado e perdeu um familiar. Também relatou que colegas de trabalho ficaram sem moradia e sem pertences, por isso a resposta da Igreja deve contemplar não somente as necessidades materiais, mas também o acompanhamento humano.
Desde sua experiência na área educacional, anunciou ainda o projeto de professores voluntários, destinado a levar docentes aos abrigos onde permanecem as famílias afetadas.

Educação em emergência para acompanhar crianças e adolescentes
O sacerdote venezuelano explicou que aproximadamente 200 edifícios colapsaram durante o terremoto e que mais de 20.000 pessoas e famílias foram afetadas. Além disso, existem mais de 200 abrigos que recebem famílias que durante um tiempo deverão permanecer em tendas ou espaços educativos.
Por trás de esses números há uma população infantil e adolescente que precisa de atenção específica. “Uma população de crianças, adolescentes que não entende nada do que está acontecendo e que, claro, também precisa ser acompanhada”, apontou.
Para o sacerdote, essa emergência evidenciou uma necessidade que deve interpelar a toda a Igreja latino-americana: a formação de professores para responder em contextos de emergência. “Precisamos formar nossos professores para a educação em emergência”, expressou, ressaltando que os docentes devem estar presentes junto a médicos, jornalistas e outros profissionais para acompanhar uma população que considera especialmente invisibilizada.
Também alertou sobre outros riscos que aparecem em contextos de desastre, entre eles o tráfico e a exploração de pessoas. Mencionou o desaparecimento de adolescentes e esclareceu que, embora existam suspeitas de que alguns poderiam ter caído em redes de exploração, não têm elementos para provar isso.

Crise que pode se prolongar
O padre Costa insistiu que a emergência não pode ser analisada de maneira isolada. A devastação provocada pelos terremotos se soma a uma crise política, econômica e social que agrava as dificuldades de recuperação.
Relatou também a experiência de sua própria família e apontou que a resposta institucional para a busca de pessoas não chegou com a rapidez esperada. Em esse contexto, destacou que a Igreja esteve presente desde os primeiros momentos: “A Igreja esteve antes da proteção civil, dos bombeiros, da polícia”.
Além das avaliações políticas expressas durante sua intervenção, o padre Costa encerrou com um apelo centrado na solidariedade e na comunicação: “Pedir-lhes que não nos esqueçam, que não sejamos apenas uma notícia”. Seu pedido resume um dos principais desafios levantados durante este espaço da Reclac: que a comunicação não acompanhe apenas a fase mais visível de uma emergência, mas que permaneça quando as câmeras se retiram e começa o longo processo de reconstrução.

Comunicar quando a notícia deixa de ser tendência
Para Tullius, manter a atenção sobre a Venezuela exige também compreender as dificuldades que enfrentam os próprios comunicadores e as organizações que trabalham em campo. Durante a emergência, explicou, as condições de conectividade foram especialmente complexas. A equipe chegou a utilizar quatro antenas da Starlink e, mesmo assim, em algumas ocasiões as fotografias e vídeos tirados durante um dia só podiam ser enviados no dia seguinte.
A comunicação foi coordenada também com a equipe local da Cáritas Venezuela e com o escritório de imprensa da conferência episcopal. A própria estrutura comunicacional também foi afetada: uma das integrantes da equipe de comunicação havia perdido sua casa, enquanto outros trabalhadores ficaram sem moradia ou emprego.
Neste contexto, a Cáritas América Latina continua coletando e distribuindo materiais audiovisuais —fotografias e vídeos— produzidos com o apoio da equipe local da Cáritas Venezuela. Tullius explicou que esses conteúdos são de uso livre e podem ser utilizados pelos comunicadores dos diferentes países para informar e mobilizar solidariedade. Também destacou a importância de fortalecer as campanhas nacionais, especialmente porque as possibilidades de doar internacionalmente podem ser limitadas pelas condições bancárias de cada país. As campanhas locais permitem que as pessoas colaborem em sua própria moeda e que posteriormente os recursos sejam transferidos para Venezuela.
Imprensa que acompanha, mas que começa a se retirar
Durante o diálogo com os participantes da Reclac surgiu também uma pergunta sobre o papel dos meios de comunicação frente à tragédia e sobre se a cobertura havia sido colaborativa, sensacionalista ou influenciada pelo contexto político venezuelano.
Com base em sua experiência no terreno, Tullius considerou que, em termos gerais, a imprensa local e internacional havia colaborado na cobertura. Relatou que teve contato com jornalistas e equipes de meios internacionais que ele descreveu como colaboradores e preocupados em mostrar a realidade.
No entanto, advertiu que o problema aparece quando diminui a atenção da mídia. “Nas duas primeiras semanas estavam a mil. A partir da terceira já começou a cair muito”, explicou. Também observou uma redução na presença de jornalistas estrangeiros no território.
Que as pessoas e suas histórias não fiquem invisibilizadas
Para os comunicadores reunidos na Reclac, este cenário levanta uma pergunta crucial: como continuar contando uma emergência quando deixa de ser notícia? A experiência compartilhada por Tullius e o padre Costa aponta para uma resposta: manter o olhar, ouvir as histórias que ficam depois da primeira notícia, acompanhar as campanhas de solidariedade e utilizar a comunicação como uma ferramenta para que as pessoas afetadas não fiquem invisibilizadas.
Porque, como lembrou o padre William Costa desde a Venezuela, o desafio agora é que o país não fique reduzido a uma notícia passageira. “Não nos esqueçam”, pediu. E por trás dessa frase aparece uma tarefa concreta para a comunicação eclesial latino-americana: continuar contando o que ocorre quando os escombros permanecem, os abrigos continuam se enchendo e a reconstrução mal começa.
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