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Padre Charly: Pessoas em situação de rua reclamam dignidade, vínculos e protagonismo diante de uma sociedade excludente

O sacerdote argentino chama a olhar as causas da exclusão, fortalecer o trabalho em rede e abrir espaços de encontro que permitam recuperar a autonomia e a esperança.
19 de agosto de 2026 by
Padre Charly: Pessoas em situação de rua reclamam dignidade, vínculos e protagonismo diante de uma sociedade excludente
Luz Marina Medina Garavito
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A propósito do Dia Latino-Americano de luta das pessoas em situação de rua, que é comemorado neste 19 de agosto, o pai Carlos “Charly” Olivero, impulsionador desta pastoral na América Latina, chama a Igreja e a sociedade a fortalecer os vínculos, reconhecer a dignidade e promover o protagonismo de quem vive na rua.

Em entrevista concedida ao ADN Celam, o padre Charly Olivero convida a olhar a situação de rua a partir das histórias de rupturas, feridas e solidão que atravessam aqueles que a vivem. Diante dessa realidade, propõe que a resposta da Igreja deve superar a assistência e começar pelo encontro e a construção de vínculos.

“Uma pessoa que terminou em situação de rua é uma pessoa que foi cortando todos os seus vínculos”, explica. Para o sacerdote, essa profunda orfandade pode estar relacionada a problemas de saúde mental, dificuldades econômicas e rupturas familiares, feridas que, por sua vez, podem deteriorar ainda mais a vida e a saúde mental da pessoa.

Fazer família e reconstruir vínculos

Diante dessa realidade, o sacerdote considera que a Igreja é chamada, acima de tudo, a “fazer família”, reconhecendo em quem vive na rua um irmão. “Nós temos que abraçá-lo e temos que recebê-lo e temos que estabelecer um vínculo”, aponta, ao ressaltar que este é um dos principais desafios pastorais.

O sacerdote argentino considera que o encontro é o primeiro passo para mudar a visão e reconhecer o protagonismo de quem vive na rua e a pessoa deixa de ser vista como alguém que simplesmente “está ali jogado”. Ao se aproximar, ouvir e estabelecer vínculos, descobre-se uma pessoa com história, sentimentos, capacidades e possibilidades para construir seu próprio caminho.

Essa mudança de olhar permite reconhecer também as capacidades e potencialidades de cada pessoa. Para Olivero, a ajuda oferecida a partir de uma posição de privilégio pode atender a uma necessidade urgente, mas nem sempre contribui para que a pessoa avance em direção a uma maior autonomia. “As pessoas que estão na rua também são os artífices de seu próprio caminho”, sustenta.

Uma realidade que exige trabalho em rede

Segundo o sacerdote, o crescimento das situações de rua reflete uma problemática habitacional que atravessa as cidades da América Latina e do Caribe. A dificuldade para alugar, a precariedade da renda e a falta de acesso a uma moradia digna ampliaram uma realidade que hoje afeta mais pessoas do que há duas décadas.

Olivero considera que ninguém deveria enfrentar essa realidade de maneira isolada. Por isso, destaca o valor de unir as comunidades e pastorais que trabalham com pessoas em situação de rua. “Trabalhar em rede nos permite construir sentidos, interpretar juntos a realidade, discernir juntos e buscar os melhores caminhos”, explica, convencido de que compartilhar experiências ajuda a compreender melhor uma problemática presente em toda a região.

O diretor destaca como referência o trabalho da Pastoral do Povo da Rua, no Brasil, por promover o protagonismo das pessoas em situação de rua na construção de políticas públicas. Também valoriza que a Conferência Episcopal Brasileira tenha colocado a problemática da habitação como eixo de sua campanha de solidariedade, contribuindo para visibilizar uma das causas estruturais dessa realidade.

Protagonistas, não destinatários passivos

Para o padre Charly, esta jornada representa antes de tudo uma oportunidade para que a própria Igreja revise sua maneira de se aproximar das pessoas em situação de rua. Antes de apontar à sociedade o caminho que deve seguir, considera necessário impulsionar uma conversão pastoral que nasça do encontro e de uma mudança profunda no olhar.

“O primeiro que a Igreja deve fazer é não ter este tema como periférico”, aponta o padre Charly. Para ele, reconhecer a dignidade de quem vive na rua exige que paróquias, escolas e comunidades abram espaços de encontro, acolhimento e acompanhamento, fazendo-os sentir que também fazem parte do nós eclesial.

O sacerdote acrescenta que, abrir as portas da Igreja para quem vive na rua também significa lembrar à sociedade que ninguém pode ser considerado estranho. “Nossos irmãos que estão em situação de rua são parte do nós social, são também cidadãos, são também pessoas como qualquer um”, aponta.

O desafio, conclui Olivero, é passar dos discursos às respostas concretas. Uma Igreja que se aproxima, ouve e acompanha, e que reconhece o protagonismo de quem vive na rua, pode oferecer um testemunho crível e contribuir para reconstruir vínculos onde a exclusão e a solidão os têm quebrado.


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